“População do Norte é menos educada”, afirma a TVI em reportagem que está a gerar revolta


Uma das várias reportagens que a TVI tem vindo a fazer sobre o novo coronavírus está a ser alvo de grande polémica.

Na emissão de ontem, dia 13 de abril, do Jornal das 8, da TVI, foi emitida uma reportagem sobre o número de infectados pela COVID-19 no norte de Portugal, que concentra quase 60% da totalidade dos casos e 57% das mortes por COVID-19 no país.

Na reportagem foram referidos alguns motivos para a concentração de casos do novo coronavírus, como “população menos educada, mais pobre, envelhecida e concentrada em lares“. A reportagem tornou-se num dos temas mais comentados nas redes sociais e as críticas foram-se multiplicando.

Perante tal situação, muitos internautas utilizaram as redes sociais para criticarem a estação de Queluz de Baixo. “Ganhem vergonha e retratem-se pela falsa informação que transmitiram”, “Sabem lá o que é ser do norte”, “Vocês são uma palhaçada de canal” ou “Respeitem o Porto” são alguns exemplos.

Em relação ao “menos educadas“, várias figuras publicas já exigiram um pedido de desculpas da estação. O Norte é uma das zonas mais instruídas do país, com três das grandes universidades públicas (Porto, Braga e Aveiro). A Universidade do Minho está sediada na cidade mais jovem de Portugal.

Quanto à parte do “mais pobre“, os dados são claros: o Norte só é marginalmente ultrapassado pela zona metropolitana de Lisboa, onde estão grande parte das sedes e escritórios das empresas, o que inflaciona bastante a contribuição lisboeta para o PIB nacional.

Uma publicação de Rui Moreira, Presidente da Câmara Municipal do Porto, tornou-se viral com mais de 18 mil partilhas.

Do ‘Norte’ com educação. No dia 7 de Abril, a BBC perguntava num interessante e bem sustentado artigo, por que razão pessoas inteligentes acreditam em mitos sobre o Coronavirus. A pergunta poderia ser endereçada à sua congénere TVI, onde pessoas supostamente cultas, a ponto de lhes ser conferida a possibilidade de fazerem reportagem, foram ontem capazes de inversa conclusão.

Numa peça emitida no Jornal das 8, a TVI ouviu especialistas que explicaram a disparidade de incidência da pandemia a Norte e a Sul. Invocaram o facto da infeção ter começado a Norte, devido à ligações dos empresários a Itália e à Espanha, a concentração demográfica maior a Norte e uma economia muito concentrada em indústrias, que não podem trabalhar em teletrabalho. Ou seja, a economia do Norte, assente na indústria, era e é mais vulnerável.

Porém, a jornalista e o oráculo da peça concluíam mais além, e atribuíram a maior incidência da doença ao facto da população do Norte ser mais pobre… e “menos educada”. A peça da TVI conclui portanto, sem base científica, que os nortenhos (ilustrados com uma bonita imagem do Porto) são menos educados e mais pobres e que é por isso que têm mais Covid19.

A TVI poderia ter concluído sem base científica, mas com alguma lógica empírica. Contudo, nem uma coisa nem outra. Partir do princípio que a “falta de educação” e a “pobreza” provocam Covid19 é quase tão absurdo como imaginar que uma boa francesinha a cura, ou que beber água morna a previne. Aliás, é até um pouco mais absurdo, porquanto a distribuição geográfica dos casos existentes em Portugal levariam então a concluir que a população de Lisboa seria bastante (mas mesmo muito) menos educada e pobre que a da Amadora, Seixal, Almada, Loures ou que a de qualquer cidade do Alentejo, já que Lisboa apresenta casos positivos de Covid19 muito acima destas localidades que a rodeiam. Por isso, ou a TVI encontra uma outra explicação para a doença, que não a falta de educação, ou estará a passar um atestado pouco simpático e injusto aos lisboetas.

A conclusão epidemiológica dos jornalistas da TVI, a ser coerente, permitir-nos-ia ainda concluir que os habitantes de Castelo Branco – onde não existe qualquer caso – são infinitamente mais bem-educados do que todos os lisboetas e milaneses.

E é bom recordar que, até ontem, Lisboa sempre foi o município português com maior número de casos de Covid19, se excluirmos o dia em que a DGS se enganou a somar e, com base no erro, quis estabelecer um cerco ao Porto.

O “Norte”, esse ponto cardeal que a TVI confunde com o Porto e vice-versa, e que imagina Viana do Castelo como uma freguesia da cidade Invicta e Braga como a sua periferia, não está provado que tenha gente mais mal-educada ou mais bem-educada do que Lisboa, da mesma forma que não se provou ainda que Lisboa tenha mais ou menos estúpidos que a Amadora, como na mesma lógica da TVI, seria apropriado dizer-se.

“De estudantes a políticos, muitas pessoas inteligentes caíram em mentiras perigosas espalhadas sobre o novo coronavírus. Porquê? E como você pode se proteger da desinformação?”. Este é o “lead” da peça da BBC sobre os mitos, as mentiras e as verdades do Covid19.
“Na pior das hipóteses, as próprias ideias erradas sobre a doença são prejudiciais – um relatório recente de uma província do Irão descobriu que mais pessoas morreram por consumir álcool industrial, com base em uma falsa alegação de que poderia protegê-lo do Covid-19, do que do próprio vírus. Mas mesmo ideias aparentemente inócuas podem atrair qualquer um para uma falsa sensação de segurança, desencorajando-o a aderir às diretrizes do governo e desgastando a confiança nas autoridades e organizações de saúde”, escreve ainda no artigo aquele órgão de comunicação britânico.

O artigo inglês termina com conselhos de comunicação acerca das campanhas de sensibilização, lembrando que até os mais inteligentes e instruídos acreditam em mentiras que podem prejudicar a luta contra a doença e aconselha todos a terem uma comunicação simples, direta e baseada em factos e não em mitos.

Assim se pede à TVI, para que contribua nesta campanha de informação correta, rigorosa e clara e que não leve à criação de estigmas e mitos que, no limite, prejudicam o combate à doença. E não foi isso que ontem fez a TVI, ao desinformar.

No mesmo dia em que a cidade do Porto viu inaugurado o seu hospital de campanha, a TVI mostrou o hospital de campanha fechado… em Lisboa. E atribuiu à “falta de educação” a propagação da doença “a Norte”. Talvez amanhã nos explique o mesmo fenómeno em Itália, onde também no Norte e na sua região mais industrial e, por ventura, mais instruída, a Covid19 explodiu para a Europa.

Tudo isto tem, é claro, um nome. Chama-se “portofobia”. Um sentimento arreigado em pessoas que acham que “este país” seria melhor sem “o Norte”. Pois bem, nós somos portugueses. Nem temos de invocar que daqui houve nome Portugal. Basta dizer que quem não está bem que se mude, e nós estamos bem em Portugal“, comentou Rui Moreira.

Eduardo Madeira foi dos primeiros a tecer duras críticas à reportagem da TVI:

Da longa lista de disparates que se vai vendo aqui e ali este entra para o top, ultrapassando as fake news da SIC (pelas quais pediu prontamente desculpa). Segundo um especialista o norte está a ser mais fustigado por ser menos educado, mais pobre, mais envelhecido e concentrado em lares. Que chorrilho de asneiras. Alguém deve, também neste caso, pedir perdão. E já! Lamentável e inconcebível“, escreveu o humorista.

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